Resposta a incidentes
Incidente não é uma questão de talento individual; é uma questão de processo ensaiado. Times que resolvem rápido não têm pessoas mais espertas — têm papéis definidos, um canal só, e o hábito de mitigar antes de entender. Sem isso, cinco pessoas competentes investigam a mesma hipótese em paralelo enquanto ninguém avisa o suporte.
Severidade: combine antes
Seção intitulada “Severidade: combine antes”Severidade define quem é acordado e com que urgência. Escreva a tabela e deixe-a acessível no canal de plantão:
| Sev | Situação | Resposta |
|---|---|---|
| 1 | Serviço principal indisponível ou perda de dados | Acorda o plantão na hora, comando declarado, comunicação externa |
| 2 | Degradação séria para muitos usuários, ou funcionalidade crítica fora | Plantão em horário estendido, comunicação interna |
| 3 | Impacto limitado, com contorno conhecido | Horário comercial, vira ticket |
Na dúvida, classifique para cima. Rebaixar depois é barato; descobrir tarde que era Sev 1 custa horas de impacto. Quem recebe o alerta pode declarar — não espere autorização de gestão para abrir um incidente.
Papéis: comando, comunicação e operação
Seção intitulada “Papéis: comando, comunicação e operação”Mesmo com três pessoas, separe as funções — o erro mais comum é a mesma pessoa investigar e responder a diretoria ao mesmo tempo, fazendo mal as duas coisas.
- Comando (IC). Coordena, decide, mantém a lista de hipóteses e o que já foi descartado. Não mexe no sistema — se estiver com as mãos no teclado, ninguém está coordenando.
- Comunicação. Atualiza status page, suporte e as pessoas interessadas em intervalo fixo (a cada 30 minutos, mesmo sem novidade). “Ainda investigando, próxima atualização às 15h” é uma atualização válida.
- Operações. Executa: consulta, muda, reverte. Anuncia no canal antes de agir.
Quem declarou o incidente assume o comando até passar explicitamente para alguém: “Ana, você assume o comando?” — “Assumo.” Transferência silenciosa não existe.
Os primeiros dez minutos
Seção intitulada “Os primeiros dez minutos” 1. Declare. Abra o canal do incidente e diga a severidade. 2. Assuma o comando, em voz alta, e nomeie comunicação e operações. 3. Responda: qual é o impacto no usuário? Desde quando? Quantos afetados? 4. Pergunte o que mudou: deploy, feature flag, migração, mudança de infra, certificado. 5. Se houver mudança recente suspeita, reverta. Não peça diagnóstico primeiro. 6. Comunique externamente se for Sev 1 ou 2. 7. Registre tudo no canal, com horário — isso vira a linha do tempo do postmortem.# "O que mudou?" — comece por aqui, quase sempre a resposta está nos últimos deployskubectl rollout history deployment/loja -n prodkubectl get events -A --sort-by=.lastTimestamp | tail -40git log --since="3 hours ago" --oneline --allMitigar antes de diagnosticar
Seção intitulada “Mitigar antes de diagnosticar”O objetivo durante o incidente é parar o impacto, não descobrir a causa raiz. Causa raiz é trabalho do postmortem, com calma e sem pressão.
Mitigações que resolvem a maioria dos casos: reverter o deploy, desligar a feature flag, crescer réplicas, desviar tráfego para outra região, ativar modo degradado (desligar recomendação e manter o checkout), limitar taxa da origem abusiva.
Reverta primeiro e investigue com o sistema saudável. A exceção é migração de banco: uma reversão de schema pode piorar tudo — por isso migração se faz em expand/contract, para que a versão anterior continue funcionando.
Comunicação com quem não é técnico
Seção intitulada “Comunicação com quem não é técnico”Diga impacto, escopo e próximo passo, sem jargão e sem prometer prazo que você não tem:
14h20 — Estamos com falhas no checkout desde 13h55. Parte das pessoas não consegue finalizar a compra; navegação e carrinho funcionam. Já identificamos a origem e estamos revertendo. Próxima atualização às 14h50.
Nunca escreva “resolvido” antes de confirmar pelos números — a métrica de sintoma voltando ao normal, não o gráfico de CPU.
Encerramento e transição
Seção intitulada “Encerramento e transição”Encerre explicitamente: sintoma normalizado por tempo suficiente, comunicação final enviada, incidente marcado com horário de início e fim. Antes de todo mundo dispersar, combine três coisas: quem escreve o postmortem, até quando, e o que precisa de acompanhamento imediato (fila acumulada, dado inconsistente, alerta silenciado que precisa voltar).
Se o incidente durar horas, faça passagem de turno formal: estado atual, hipóteses descartadas, ações em andamento e quem assume o comando. Cansaço causa mais erro que falta de conhecimento.
Próximo passo: transforme o que aconteceu em mudança real com Postmortem sem culpado.